Projeto de Tese de Doutoramento
Errantes e Insubmissas - Caminhar Para Acertar Contas com o Passado: Uma Reescrita Feminista da Memória Pública de Mulheres na Cidade do Porto
Orientação: Catarina Caldeira Martins, Gonçalo Cholant e Carla Cruz
Programa de Doutoramento: Estudos Feministas e Queer
As cidades são o cenário privilegiado da História, onde as narrativas do passado se organizam e adquirem uma dimensão política e coletiva (Perrot, 1989). Por esta razão o direito à memória surge intimamente ligado ao direito à cidade. No contexto da cidade patriarcal, modelada pela diferença de sexo-género (Perrot, 1997), as mulheres têm experienciado uma dupla exclusão. Além das disputas contemporâneas para ocupar a cidade e transitar nela, a memória histórica das mulheres é sub-representada ou apagada. Paradoxalmente, nas paisagens urbanas diversas representações do feminino integram e modelam o quotidiano físico e imaginário simbólico partilhado (Warner, 1994). Todavia, estas não refletem o reconhecimento histórico do papel preponderante das mulheres na sociedade nem as suas reais possibilidades de participação política. Por oposição, são objetificações e abstrações sexualizadas, a partir de olhar patriarcal que se apoia em estratégias de exclusão física e simbólica para restingir às mulheres os seus plenos direitos.
Partindo desta problemática, este estudo investiga a representação da Memória Pública de Mulheres (MPM) na cidade do Porto, observando como estas são incluídas ou marginalizadas nas narrativas urbanas. Recorrendo à caminhada como metodologia (Carreri, 2014; Jacobs, 2011; O'Neill & Roberts, 2019), analisa topónimos, esculturas, monumentos e intervenções artísticas, produzidas entre os séculos XX e XXI.
Ancorada nas epistemologias feministas, a pesquisa adota uma abordagem multidisciplinar articulando história da arte (Lacy, 1994; Perrot, 1997; Warner, 1987; Choay, 2011) os estudos da memória cultural (Perrot, 1989; Halbwachs, 2011; Erll & Nünning, 2008), e sociologia urbana (Harvey, 2011; Fraser & Ruiz, 2014; Lefebvre, 2011), para tecer uma leitura expandida da paisagem que evidencia como a sub-representação da MPM se relaciona com outros direitos humanos fundamentais.
Partindo da convicção da necessidade de outras práticas de memorialização mais justas e igualitárias, este projeto adota, adicionalmente, uma perspectiva transhistórica, elencando as estratégias de apropriação feminista do espaço público ao longo do tempo. Paralelamente, com a Tour Feminista do Porto (Medeiros & Santiago, 2020), e outros projetos locais de reapropriação discursiva da cidade através da caminhada e da ação artística, a investigação apresenta contra-narrativas da MPM na cidade.

