Projeto de Tese de Doutoramento
Crítica e Luta. Capitalismo Racial, Reprodução Social e "Os Usos da Arte" nos Museus Europeus
Orientação: Silvia Rodríguez Maeso e Marcus Verhagen
Programa de Doutoramento: Human Rights in Contemporary Societies
Financiamento: FCT
Esta tese analisa o programa «The Uses of Art - O Legado de 1848 e 1989» (2013-2017), o primeiro projeto colaborativo de longo prazo da L'Internationale, uma confederação europeia de museus conhecida pela sua abordagem crítica às instituições artísticas. Iniciado na sequência do desmantelamento dos sistemas de proteção social europeus após a crise de 2008 e financiado pelo programa Europa Criativa da UE, «The Uses of Art» defendia que os museus deviam transformar-se em plataformas capazes de mediar novas subjetividades políticas e renegociar o contrato social da cultura, em resposta ao declínio da social-democracia europeia. Centrando-se em três projetos institucionais - as exposições Museum of Arte Útil (2013-2014) no Van Abbemuseum, Really Useful Knowledge (2014-2015) no Museo Reina Sofía, e o subsequente compromisso do Middlesbrough Institute of Modern Art com um modelo de museu gerado pelos utentes - esta tese defende que uma perspetiva crítica fértil sobre «The Uses of Art» emerge precisamente no espaço que separa o museu de arte, enquanto «espaço de crítica permissível» (Black, 2016a), das lutas coletivas que visam os modos de reprodução que tornam insuportáveis as vidas feminizadas e racializadas.
Apoiando-se na crítica de arte marxista-feminista, que situa o apelo da «arte útil» e das propostas para um «museu útil» no contexto da «austeridade» e da chamada «crise migratória» - fenómenos paralelos que revelaram o desmantelamento sistémico do Estado-providência europeu através de políticas que privatizam a reprodução social, ao mesmo tempo que expandem os controlos policiais e fronteiriços -, a tese mobiliza o conceito de «não-relação» para descrever a invisibilidade, marcada pelo género, pela raça e pela migração, de trabalhadores que permanecem desconectados da radicalidade professada no discurso institucional, apesar do seu papel essencial na reprodução da infraestrutura do museu. A esta crítica, a tese acrescenta um segundo pilar indispensável: a desconstrução, pela tradição radical negra, do regime de humanidade pós-iluminista no qual está enraizado o contrato social da cultura, precisamente o contrato a ser renegociado.
Metodologicamente, a tese aborda o museu como um «conjunto de relações» (Gilmore, 2007), inspirando-se vagamente na etnografia institucional para examinar a (des)articulação entre a fachada pública (frontend) do museu e os bastidores (backend) deste local de trabalho. Através de entrevistas realizadas a todos os níveis da hierarquia institucional, o estudo traça a discrepância entre aquilo que os museus dizem fazer e aquilo que «fazem de facto» (Ahmed, 2012).
O capítulo final examina práticas que tratam as contradições internas da instituição como um espaço de organização política. Teorizadas através da lente da «crítica infraestrutural» (Vishmidt, 2017; 2021), estas práticas não oferecem um modelo fixo para a reforma, antes delineiam um «espaço negativo» de possibilidades. Na sua essência, esta tese pergunta se o horizonte da arte - esse espaço de «crítica permissível» que, no entanto, não é propício à luta coletiva - é a instituição ou o mundo social.

