Teses Defendidas

Espacialidades Educativas. O que contam os alunos? Estórias sobre arquitetura escolar em Portugal

Carolina Ferreira

Data de Defesa
29 de Janeiro de 2026
Programa de Doutoramento
Arquitetura
Orientação
António Manuel Rochette Cordeiro e Gonçalo Canto Moniz
Resumo
'O que contam os alunos?' foi a pergunta que orientou esta tese de doutoramento em arquitetura, partindo da convicção de que para um conhecimento mais significativo sobre o espaço é necessário entendê-lo pela experiência vivida de quem o habita. Desenvolveram-se, por isso, 'Estórias sobre arquitetura escolar em Portugal', promovendo uma análise arquitectónica e urbana de um conjunto de edifícios construídos para o ensino secundário ao longo do século XX, a partir das narrativas dos alunos sobre os espaços que habitam. O objetivo foi construir outras narrativas sobre o edifício escolar e o espaço urbano enquanto 'objeto tecnológico' que sustenta e influencia as actividades de ensino e aprendizagem. Procura-se, assim, cruzar as intenções projetuais, políticas e pedagógicas presentes na conceção do edifício escolar com os aspecto vivenciais do dia a dia dos alunos, explorando um tipo de descrição dinâmica, centrada na capacidade relacional do edifício e naquilo que o faz existir: as pessoas e os significados que nele se inscrevem.

A abordagem adotada articula o quadro conceptual da Actor-Network Theory (ANT) - onde a análise se centra nas interações que um grupo de atores humanos e não humanos; materiais e imateriais produz em rede - com o conceito de Espacialidades desenvolvido por Fábio Duarte (2017), que destaca o papel da experiência e do uso na produção de sentido espacial. O espaço escolar é, deste modo, entendido como resultado de interações contínuas entre pessoas, espaços e objetos, tornando possível mapear narrativamente redes de relações que revelam a complexidade educativa, arquitetónica e urbana dos equipamentos escolares.

O trabalho empírico baseia-se em visitas a 12 escolas do 2.º e 3.º ciclos, realizadas entre 2015 e 2019, no âmbito do programa CES vai à Escola, envolvendo 334 alunos de 15 turmas, com idades entre os 11 e os 18 anos. O conjunto inclui oito escolas renovadas pelo Programa de Modernização das Escolas para o Ensino Secundário (2007-2012) e quatro escolas que mantêm a sua tipologia original, representando modelos arquitetónicos distintos, de 1931 a 1988, implantados em diferentes contextos urbanos. Nas sessões, os alunos narraram as suas experiências e mapearam preferências na planta da escola, assim como, os lugares que frequentam para além da escola, na planta da cidade.

A análise dessas narrativas e mapeamentos foi organizada em dois eixos, dos quais resultaram seis 'Estórias sobre os espaços escolares' e duas 'Estórias sobre Escola & Cidade'. Os resultados evidenciam que a articulação programática entre espaços, a permeabilidade dos limites e as qualidades sensoriais e ambientais influenciam diretamente o modo como os alunos se apropriam da escola. Mostram ainda que as opções arquitetónicas da entrada e os limites do recinto escolar podem favorecer ou restringir a relação entre escola, os alunos e a cidade e, que o contexto envolvente - urbano ou natural - tem impacto direto no bem-estar e nas dinâmicas sociais dos alunos. Mostrou-se também que a dimensão educativa do espaço não termina no interior da escola, mas prolonga-se pela cidade.

Conclui-se que escutar 'O que contam os Alunos?' é fundamental para apoiar a prática arquitetónica na conceção de espaços com potencial educativo, revelando dimensões que não são captadas por abordagens exclusivamente técnicas ou normativos. As 'Estórias sobre arquitetura escolar em Portugal' oferecem orientações essenciais para a transformação futura dos equipamentos escolares e reforçam a responsabilidade social e educativa da arquitetura no desenho de espaços que acolham, apoiem e ampliem as aprendizagens.

Palavras-chave: Espacialidades Educativas; Arquitetura Escolar; Actor-Network Theory (ANT); Análise de Estórias; Mapeamento Espacial e Narrativo