Teses Defendidas

Migração forçada nas fronteiras da Europa: uma análise dos mecanismos de externalização de fronteiras no Mediterrâneo

Inês Sousa

Data de Defesa
21 de Janeiro de 2025
Programa de Doutoramento
International Politics and Conflict Resolution
Orientação
Daniela Nascimento
Resumo
Esta tese investiga a relação entre a migração forçada e as políticas da União Europeia a partir de uma análise crítica das políticas e estruturas de externalização do controlo fronteiriço dominantes no contexto europeu ao longo das últimas décadas. A partir de uma leitura alargada da evolução histórica das políticas migratórias e de asilo europeias, analisam-se os contextos políticos chave que permitiram o desenvolvimento desta arquitetura de gestão migratória no período compreendido entre 2003 e 2020. De forma a ilustrar a complexidade dos contextos políticos e humanos subjacentes a estes processos, são analisados casos ilustrativos de dinâmicas particulares de externalização do controlo de fluxos migratórios para países terceiros, nomeadamente a Líbia e a Turquia. A análise está enquadrada num diálogo entre os estudos críticos de segurança e os estudos críticos de migração para avaliar a natureza das estruturas e das relações estabelecidas entre os atores destes processos, mas também as suas consequências do ponto de vista da proteção dos direitos humanos de todos aqueles que são forçados a deslocar-se. À luz dos compromissos normativos declarados pela UE com o respeito, proteção e promoção direitos humanos, procura-se desenvolver uma análise da interação mutuamente constitutiva entre a narrativa de segurança e controlo e a de solidariedade e de proteção. Através de uma análise qualitativa de documentos políticos, entrevistas com especialistas e uma revisão da literatura relevante, este estudo visa: (1) compreender como as políticas de segurança moldaram ao longo do tempo o quadro de externalização das lógicas e estrutura de controlo fronteiriço; (2) explorar o impacto destas políticas no quadro de estabilidade e segurança regional; e (3) contribuir para os debates em curso sobre as consequências e dilemas éticos resultantes destas práticas de externalização do controlo fronteiriço. Ao revelar as dinâmicas complexas em jogo, esta tese oferece uma compreensão mais alargada dos desafios e contradições inerentes à abordagem da UE em matéria de gestão migratória. Conclui-se que há na arquitetura composta por mecanismos e políticas de controlo e gestão das fronteiras externas da União Europeia, elementos que têm contribuído para a perpetuação de práticas violentas e excludentes em relação a migrantes forçados. A externalização da gestão migratória, como conceito chapéu para várias práticas, assim como a militarização crescente das fronteiras resultaram na criação de zonas de exclusão, onde o acesso ao asilo e à proteção internacional se torna quase impossível. Essas práticas, que incluem detenções arbitrárias, deportações forçadas e o bloqueio de rotas migratórias, têm colocado os migrantes forçados em situações de extrema vulnerabilidade e perigo. Adicionalmente, verifica-se uma desconexão significativa entre as obrigações de promoção e proteção de direitos humanos presentes nos tratados fundacionais da UE e a natureza de práticas de controlo nas fronteiras externas da UE e no Mediterrâneo. Este quadro não só enfraquece os princípios que informam a narrativa de paz e solidariedade que a União Europeia defende, mas também cria um vácuo normativo que legitima narrativas alternativas de discriminação, exclusão e violência, pondo em causa a integridade da comunidade política europeia.