Teses Defendidas

Os Sons do Espaço Público e da Arquitetura na Sociedade da Sonorização Ativa

Cristiano Pacheco

Data de Defesa
29 de Abril de 2026
Programa de Doutoramento
Cidades e Culturas Urbanas
Orientação
Paulo Peixoto e Rogério Proença
Resumo
Esta tese propõe uma reinterpretação da escuta urbana, examinando de que modo as paisagens sonoras e a vida citadina se configuram mutuamente. Partindo de uma análise comparativa entre os bairros Aruana, em Aracaju (Brasil), e Solum, em Coimbra (Portugal), o estudo investiga a relação entre som, espaço público e arquitetura, sustentando que a sonorização ativa, entendida como intervenção deliberada em ambientes acústicos, pode transfigurar profundamente a experiência urbana.Aqui, o som assume-se como operador epistemológico e sensível, repelindo-se a sua marginalização enquanto mero fundo acústico. As paisagens sonoras de Aruana e Solum analisam-se como arquivos vivos de afetos, conflitos, resistências e memórias coletivas. Ao privilegiar uma escuta situada e partilhada, a investigação propõe discernir a esfera urbana a partir de diversos modos de escutar e atribuir sentido ao território.A pesquisa refuta a hegemonia do campo visual no planeamento urbano, denunciando a surdez das ciências sociais face à dimensão sonora. Inspirando-se em autores tais como Murray Schafer e Henri Lefebvre, a metodologia adotada conjuga passeios sonoros (soundwalking), etnografia sensorial e mapeamento acústico. O estudo revela que os sons urbanos, os quais podem variar entre motores de carros, cantos de aves, festas populares, ou silêncio intermitente dos parques, constituem agentes ativos na produção do espaço social.A investigação desenvolve-se em três etapas interdependentes. A primeira, de cariz qualitativo, privilegia a deambulação sensível nos bairros, propondo uma leitura da cidade orientada pela prática de escuta. A segunda, quantitativa, analisa as respostas de inquéritos aplicados localmente, evidenciando perceções acústicas e modos de apropriação do espaço. Na terceira fase, a análise aprofundada de passeios sonoros e sessões de brainstorm revela como os participantes reagem criticamente a ambiências acústicas, reinterpretando o território a partir dos sons que aí reverberam.A originalidade desta tese reside na criação de um modelo metodológico replicável, o qual alia rigor estatístico, densidade interpretativa e sensibilidade estética. Mediante a proposta de sonorização ativa como ferramenta de intervenção urbana, demonstra-se que sons intencionalmente introduzidos podem ressignificar espaços, incentivar a participação cidadã e fortalecer vínculos afetivos com o ambiente edificado.Nos bairros analisados, a investigação revela contrastes significativos na composição e apropriação das ambiências sonoras. Enquanto Aruana, onde predominam condomínios fechados e feiras livres, exibe uma cacofonia de sons comerciais, naturais e políticos, a Solum, vinculada ao tecido académico e patrimonial, ecoa ritmos da vida universitária e marcas sonoras do seu passado. Esta leitura atesta que o planeamento urbano não deve apenas controlar o som considerado intrusivo, mas também valorizar a diversidade acústica como expressão de identidade local.As conclusões da tese evidenciam que a escuta urbana constitui uma prática interpretativa que amplia a compreensão do espaço para além da sua materialidade visível. Verifica-se que os sons tanto refletem dinâmicas sociais, quanto interferem com modos de ocupação, circulação e convivência, convertendo-se em mediadores de relações territoriais. A investigação corrobora que o som se pode mobilizar como instrumento de reconhecimento identitário, ativação da memória coletiva e contestação política, ou, inversamente, enquanto dispositivo de exclusão e controlo, dependendo do modo como se regula e perceciona.A análise comparada viabiliza identificar-se um eixo de contraste entre práticas de escuta amortecidas, assentes em indiferença e dissolução, conforme observado em determinadas zonas da Solum, e escutas densificadas, fortemente impregnadas de significados políticos e afetivos, como se verifica em diversas zonas do bairro Aruana. Deste modo, o ato de escuta ativa configura-se enquanto via de acesso a dinâmicas subjetivas e coletivas amiúde invisibilizadas nas leituras convencionais do meio urbano.Por fim, sustenta-se que o planeamento acústico não deve restringir-se à mitigação do ruído, mas assumir um cariz propositivo e dialogante, integrando a prática de escuta como instrumento de diagnóstico, mediação e intervenção urbana. Assim, a tese propõe que o futuro das cidades sensíveis depende da capacidade de escutar os seus sons com atenção crítica e afetiva, reconhecendo nestes vestígios de pertença, conflitos do presente e anseios por um espaço mais justo e partilhado.Num mundo onde o silêncio constitui um privilégio e a intrusão sonora como fenómeno disseminado, esta pesquisa afirma que as cidades do futuro se devem projetar não apenas para os olhos, mas também para os ouvidos, pois é no entrelaçamento acústico do quotidiano que se revelam as camadas sensíveis da vida urbana.

Palavras-chave: Auditivação das paisagens urbanas; Paisagens sonoras; Passeios sonoros; Ritmanálise; Sonorização ativa